A pandemia está acelerando o futuro do Direito?

A pandemia está acelerando o futuro do Direito? Hoje pretendo explorar este importante questionamento.

Em recente entrevista ao Financial Times, o professor e escritor israelense Yuval Noah Harari afirmou que a natureza de emergências como a da COVID-19 faz com que os processos históricos avancem muito rapidamente. Mudanças que imaginávamos – e algumas, aliás, que sequer imaginávamos – são antecipadas em anos, quando não em décadas.

Acelerando o futuro

Decisões que, em tempos normais, levariam anos de deliberação, em cenários como o de agora são aprovadas em questão de horas. Da mesma forma, tecnologias imaturas e até perigosas são colocadas em serviço. Tudo isso, em síntese, porque os riscos de não fazer nada – ou seja, de permanecermos complemente inerte diante da situação – são maiores.

De acordo com Harari,

Países inteiros servem como cobaias em experimentos sociais em larga escala. (…) Em tempos normais, governos, empresas e conselhos educacionais nunca concordariam em realizar tais experimentos. Mas estes não são tempos normais. – Yuval Noah Harari

Harari destaca, em suma, que não estamos vivendo tempos normais

Não à toa, diversos especialistas têm alertado que a pandemia funcionará como uma “aceleradora de futuros”. Futuros, assim mesmo, no plural, porque as possibilidades são infinitas. O momento em que estamos vivendo está acelerando a adoção de tecnologias em indústrias e setores tradicionalmente avessos à inovação, como é o caso do Direito.

Choque do futuro

Em 1965, em artigo publicado na revista Horizon, Alvin Toffler cunhou a expressão choque do futuro para descrever “a esmagadora tensão e a desorientação a que induzimos os indivíduos quando os sujeitamos a um excesso de mudanças em pouco tempo”. O futurista se referia à aceleração das mudanças que, à época, já atingia indústrias, nações e indivíduos.

Conforme Alvin Toffler,

O choque do futuro é um fenômeno temporal, um produto do ritmo grandemente acelerado das mudanças da sociedade. Ele surge da superimposição de uma nova cultura sobre uma outra mais antiga. Ele é equivalente a um choque cultural dentro de sua própria sociedade. Mas o seu impacto é muito pior. – Alvin Toffler

Para Toffler, o choque do futuro é equivalente a um choque cultural dentro de sua própria sociedade

Adaptando o conceito à realidade, parece inegável que a pandemia está apresentando uma versão revigorada do conceito. Toffler se referia ao choque do futuro como a “absoluta desorientação trazida pela chegada prematura do futuro”. Aliás, qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência. A pandemia desorienta e antecipando novos amanhãs.

Alarmismo? Nada disso!

Ainda que estejamos vivendo uma aceleração de futuros ou uma versão revigorada do “choque do futuro”, não quero insistir num cenário alarmista. Muito pelo contrário: acredito que devemos enxergar o momento de crise como uma oportunidade para expandir nossas capacidades cognitivas e criativas, explorando todos os limites do possível adjacente.

O conceito do possível adjacente, aliás, idealizado por Stuart Kaufmann, nos remete a todas as combinações de moléculas diretamente alcançáveis na sopa primordial, que deram origem à vida na Terra. O escritor Steven Johnson transportou o conceito ao campo das inovações, para ilustrar por que algumas invenções fracassaram ao longo da história.

O escritor Steven Johnson transportou o conceito ao campo das inovações

No curso da história do progresso cultural, pessoas tiveram ideias incríveis, mas o momento (ou o ambiente no qual foram concebidas) não estavam prontos para elas. Em contrapartida, nos dias atuais as novas tecnologias democratizaram o conhecimento, permitindo a qualquer pessoa lançar novas ideias no mercado para fazer frente a empresas consolidadas.

Há uma década, pouco se falava no Brasil em soluções tecnológicas para escritórios de advocacia. Expressões como inteligência artificial, blockchain e jurimetria pouco eram mencionadas. De três anos para cá, tais temas adquiriram maior repercussão – mas, ainda assim, antes da pandemia alguns profissionais não buscavam compreender suas aplicações.

A pandemia está acelerando o futuro do Direito

Agora, a pandemia está acelerando o futuro (ou os futuros) do Direito, trazendo incertezas, mas, ao mesmo tempo, oportunidades. A crise está antecipando a adoção de novas tecnologias pelos escritórios de advocacia. O próprio Judiciário já está analisando pedidos judiciais em sessões de videoconferência e, em breve, deve iniciar as audiências virtuais.

E o que quero dizer com tudo isso? Quero dizer que se você tem um sonho ou um projeto engavetado, talvez seja agora o melhor momento de reavaliá-los e colocá-los em prática. E se for este justamente o momento certo para a sua ideia? E se ela estiver dentro de seu possível adjacente? Enfim, e se a grande oportunidade da sua vida surgir por conta da pandemia?


Continue explorando o assunto

TOFFLER, Alvin. O choque do futuro. Trad. Eduardo Francisco Alves. Petrópolis: Vozes, 1970.


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Bernardo de Azevedo

Advogado, empreendedor, professor e pesquisador de novas tecnologias. Acredita no poder da informação como forma de incentivar as pessoas a promover mudanças.

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