No mundo pós-pandemia, haverá espaço para escritórios de advocacia “não digitais”?

Os debates em tornos da utilização de novas tecnologias em escritórios de advocacia não são exatamente novos. Há décadas especialistas divulgam os benefícios da tecnologia para aprimorar serviços jurídicos, em especial aqueles considerados rotineiros e repetitivos. Mas agora, no mundo pós-pandemia, as discussões ganharam contornos inéditos.

O conceito de “transformação digital”, muito criticado por alguns, passou a ser pauta semanal nos escritórios de advocacia. E o mesmo vale para as tecnologias jurídicas. Se, antes da crise, eram consideradas ‘luxo’ por alguns; agora, em meio à pandemia, passaram a se tornar necessárias para realizar a mais simples das atividades profissionais.

O especialista em inovação tecnologia John Ahern sintetiza, aliás, o cenário:

Agora, mais do que nunca, a tecnologia jurídica está se tornando um método de sobrevivência na crise sem precedentes de hoje, tornando obsoleta a conversa sobre a lenta adoção de escritórios de advocacia. – John Ahern (CEO da InfoTrack)

Escritórios de advocacia “digitais” e “não digitais”

Há pouco dias escrevi um texto sobre as três ondas de transformação do Direito no mundo pós-pandemia. Um dos cenários propostos no artigo é o de que o conceito de transformação digital será perfeitamente compreendido na nova realidade. Como os efeitos da pandemia serão experimentados mesmo após o fim da crise, não fará sentido “não ser digital”.

No exato momento em que escrevo este texto, estamos fechando um mês de quarentena. Durante o período, muitos profissionais tiveram de aprender, na marra, a trabalhar com ferramentas tecnológicas. Enquanto alguns advogados ainda estão “penando” para manusear o novo toolkit, outros já perceberam todo o potencial das tecnologias (jurídicas).

Sou entusiasta do Futurismo – disciplina que imagina cenários futuros, num tempo pós emergente, ou seja, de cinco a dez anos –, e sempre reforço que ninguém pode prever o futuro. Mas, da forma como o quadro está sendo emoldurado, escritórios de advocacia “não digitais” terão dificuldades em se manterem ativos no mundo pós-pandemia.

A pandemia pode cessar amanhã, mas seus efeitos não

Antes de responder o que entendo por escritórios “não digitais”, façamos um exercício de imaginação. Suponhamos que a pandemia termine amanhã e que a mídia divulgue que um grupo de cientistas encontrou a vacina para o COVID-19. Naturalmente, muitos testes adicionais deverão ser realizados antes que se comece a vacinar todas as pessoas do mundo.

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Escritórios de advocacia “não digitais” conseguirão sobreviver no mundo pós-pandemia?

Além disso, é provável que determinados grupos de pessoas sejam selecionadas para serem vacinados primeiro. Em resumo, serão muitos meses até que todas as pessoas, incluindo eu e você, sejam vacinadas. Enquanto tudo isso acontece no campo da ciência, da epidemiologia e da medicina, o Poder Judiciário está sendo abarrotado de demandas judiciais.

Já se tem notícia de milhares de ações judiciais ajuizadas no País, tendo “COVID-19” como palavra-chave. Em abril de 2030, algum magistrado provavelmente estará analisando algum pedido judicial que envolva, como pano de fundo, a pandemia do coronavírus. Em resumo, mesmo que a crise termine amanhã, seus efeitos se prolongarão no tempo.

O que esperar do mundo pós-pandemia?

Sendo assim, você realmente acredita que o mundo do Direito será igual após a pandemia? Que escritórios de advocacia que decidirem manter a forma como sempre trabalharam terão espaço em meio a outros que estão transformando radicalmente sua maneira de trabalhar? Que escritórios de advocacia “não digitais” conseguirão sobreviver no mercado?

Por “não digitais”, quero me referir àqueles escritórios de advocacia que não adotam qualquer tipo de solução tecnológica para aumentar sua produtividade e eficiência. Quero me referir também àqueles que não empregam quaisquer tecnologias para reduzir seus custos ou, ainda, que não exploram o potencial das tecnologias para oferecer diferenciais competitivos.

Quando a pandemia cessar, é provável que alguns escritórios de advocacia retornem a trabalhar da forma como sempre fizeram. Tudo do jeito como sempre foi. Enquanto muitos outros profissionais estão explorando o potencial das novas tecnologias nesse momento de crise, outros vão ignorar totalmente o cenário, como se nada jamais tivesse acontecido.

Gosto de pensar que, fazendo as perguntas certas, chegamos mais longe. É a base, aliás, do pensamento crítico. Por isso, hoje encerro este texto com mais perguntas do que respostas: conseguirão esses escritórios “semianalógicos” sobreviver no mundo pós-pandemia? Estarão eles aptos a competirem com profissionais que aproveitaram a crise a seu favor?

Supondo que a pandemia terminasse amanhã, você retornaria à forma como sempre trabalhou? Ou tomaria a decisão de ressignificar, de vez, sua forma de trabalhar? Quais foram seus maiores aprendizados desde que a quarentena iniciou? Você está se tornando um profissional melhor? Quão disposto você está a alçar voo no mundo pós-pandemia?


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Bernardo de Azevedo

Advogado, empreendedor, professor e pesquisador de novas tecnologias. Acredita no poder da informação como forma de incentivar as pessoas a promover mudanças.

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