O que aprendi participando do Global Legal Hackathon 2020

Escrevo este texto após um final de semana intenso, criativo e transformador. Foram dois dias e meio de imersão total no Global Legal Hackathon, a maior maratona de inovação jurídica do mundo. O evento reuniu milhares de participantes em todo o mundo, sendo realizado simultaneamente em diversas localidades. Participei da edição em Porto Alegre (RS), co-organizada pelo Legal Hackers e Slap Hub, que aconteceu na faculdade IMED.

Sempre ouvi falar bem do evento, mas não imaginava que a experiência seria tão rica. Vou tentar neste texto descrever minhas impressões sobre a jornada de quase três dias inteiros, bem como os aprendizados desse final de semana incrível. Não há como descrever tudo, pois há sensações que as palavras não são capazes de traduzir. Parece, sim, clichê escrever isso, mas é a mais pura verdade. Quem viver, participar e experimentar, saberá.

O início do Global Legal Hackathon

O hackathon começou na sexta-feira (07), por volta das 19h. A abertura contou com o time da Slap Hub, liderado por Gustavo Sudbrack, dando as boas-vindas a todos os participantes. Em seguida, foi a vez de Daniel Marques, Diretor Executivo da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), palestrar sobre as transformações do Direito e o cenário de startups jurídicas no País. As expectativas do evento aumentavam.

Formação de equipes

Depois de um pequeno intervalo, foi iniciada a dinâmica de formação das equipes. Em primeiro lugar, fomos todos convidados a subir ao palco para apresentar nossas ideias aos demais. Como não houve aviso prévio, o convite “pegou” todos os participantes de surpresa. Tivemos de elaborar tanto a ideia quanto a solução (minimamente viável) em menos de 15 minutos. Dos cerca de 60 participantes, em torno de 20 subiram ao palco. Fui um deles:

Global Legal Hackathon 01
Apresentando minha ideia inicial aos participantes

Em segundo lugar, escrevemos a síntese de nossas ideias em cartolinas e expusemos aos demais participantes (segunda etapa). Cada participante tinha direto a votar em três ideias. Bastava desenhar uma estrela na cartolina da ideia aprovada. Algumas delas tiveram quase 20 votos. Outras, aliás, tiveram menos. No total, oito ideias foram aprovadas para a terceira etapa da formação de equipes. A minha, infelizmente, não havia sido aprovada.

Uma vez selecionadas as oito ideias, os participantes das categorias Design, Tech e Business (minoria se comparado ao Legal) foram distribuídos nos respectivos grupos. Depois, foi a vez dos participantes da categoria Legal escolherem suas equipes. Das opções disponíveis, nenhuma me estimulava tanto quanto a minha. Contudo, de todas elas, a do Matheus Wagner era que mais me agradava de trabalhar. Decidi apostar no projeto dele.

Conversando sobre a ideia

Levou alguns minutos até que todos os grupos estivessem formados. Das oito equipes, duas decidiram se unir. Sete equipes disputariam, então, a competição. Precisávamos discutir a ideia e alinhar mais detalhes para ter alguma chance de vencer o hackathon. Cabia agora ao Matheus nos contar mais sobre o projeto e suas sugestões iniciais para desenvolvê-lo naquele final de semana. Ouvimos por alguns minutos tudo o que ele tinha a dizer.

Em suma, a ideia envolvia a criação de um sistema unificado e capaz de apresentar ao usuário (advogado/a) intimações de todos os portais de processo eletrônico do Brasil não contemplados por publicação no Diário Oficial. A ideia era boa, mas, a princípio, tinha dois problemas: faltava o quesito “originalidade” exigido (ao que verificamos outras empresas estavam oferecendo soluções similares) e era difícil materializá-la em MVP em apenas dois dias.

À medida que conversávamos, muitas dúvidas surgiam em nossas cabeças. Como criar esse sistema unificado tão rapidamente? Teria o desenvolvedor do time tempo hábil para programar? Como venderíamos a ideia aos jurados? Parecia realmente difícil organizar tudo, mas era justamente o que o evento buscava: nos levar a fazer muito em pouco tempo. Após alguns minutos de conversa, decidimos que era preciso mudar o escopo da ideia (pivotar).

Pivotando a ideia inicial

Decidi propor minha ideia, que acreditava ser mais viável para entrega até domingo (08). Propus uma plataforma intuitiva para ajudar os advogados a melhorarem a comunicação de suas petições, através de elementos visuais como vídeos, infográficos e fluxogramas (Visual Law). A ideia não foi bem aceita pelo time – ao menos foi o que me pareceu naquele primeiro momento –, e todos decidiram retomar a conversa no dia seguinte.

Na manhã do dia seguinte, encontrei o Matheus e ele logo me disse que minha ideia tinha sido escolhida pelo time. Em seguida, o Rhuan, nosso desenvolver, também me confirmou que seria a mais viável para apresentar um MVP até domingo. Fiquei contente com a adesão da equipe, e juntos, decidimos desenvolver melhor os contornos do projeto. Conversamos durante boa parte da manhã e, em poucas horas, os avanços eram perceptíveis.

Em síntese, já tínhamos definido o nome da startup (VisualDocs), a fundamentação do problema, os contornos da solução e o modelo de negócio. O primeiro aprendizado que tive nessa manhã foi que, quando um grupo de pessoas realmente quer fazer algo e se dedica integralmente na execução, esse algo (ideia, conceito, projeto) se torna realidade. Estava satisfeito com nosso desempenho e senti que tínhamos chances reais de vencer o hackathon.

Preparando o MVP

Uma preocupação do Rhuan era desenvolver o MVP e apresentar algo executável (“clicável”, “rodável”) aos jurados. Ajudei ele montando dois modelos de petição: uma crua (sem Visual Law) e outra com elementos visuais. Enquanto isso, o Matheus e as duas mulheres integrantes da equipe, Adriana e Carolina, começaram a reunir informações sobre empresas concorrentes e consultar potenciais clientes que acreditassem em nossa solução.

Outra decisão que tínhamos de tomar era quem apresentaria a solução aos jurados. Apesar da ideia inicial ter sido exposta por mim, a Carolina demostrou elementos importantes para a apresentação, como carisma e poucos vícios de linguagem. Decidimos que ela representaria o time no momento do pitch. Ela abraçou a missão sem hesitar e começou a rascunhar a apresentação. Ajudamos a organizar todos os detalhes para o pitch ser certeiro.

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De tempos e tempos chamávamos mentores para nos auxiliar. Era, em síntese, uma troca muito rica. Cada mentor trazia uma contribuição importante, o que acabou nos levando a redefinir diversas vezes os contornos do modelo de negócios. Tentávamos absorver o máximo possível das informações dos mentores, mas era necessário dispensar algumas sugestões, sob pena de não conseguirmos viabilizar tudo até o último dia do hackathon.

O segundo dia chegava ao fim. Tínhamos concretizado muito, avançado dezenas de passos, mas senti uma exaustão mental que há tempos não experimentava. O Rhuan se comprometeu a trabalhar no MVP durante toda a noite, para nos apresentar algo concreto no dia seguinte. Senti firmeza nele. Agora era esperar o domingo, o dia em que apresentaríamos a VisualDocs aos jurados. Um misto de satisfação e ansiedade tomavam conta.

Momento pré-pitch no Global Legal Hackathon

Acordei cedo e comecei a trabalhar na criação do logotipo da nossa startup. Não sou designer, mas, de todos da equipe, tinha mais experiência em manusear o Photoshop e o Canva. Criei algo simples e clean, e o time todo gostou. Passamos, então, a ajustar os últimos detalhes do pitch. A Carolina treinou várias vezes a apresentação. Medimos o tempo em todas as elas, pois era necessário seguir à risca os cinco minutos exigidos pelo evento.

O primeiro pitch deu mais de 7 minutos. Tivemos de cortar algumas informações que julgávamos importantes, mas, na prática, consumiam tempo. Não foi fácil escolher o que deveria permanecer e o que deveria ser eliminado, mas tivemos êxito. O décimo pitch já estava mais próximo dos 5 minutos. Alguns mentores nos ajudaram a moldar melhor o pitch, e ouvíamos tudo com atenção. A Carolina seguiu treinando, agora orientada por um mentor específico.

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Global Legal Hackathon 02
Parte da equipe reunida (com exceção da Carolina, que estava treinando o pitch no auditório)

O momento mais importante do hackathon estava chegando. Eis que surge o problema: às vésperas do pitch, um dos mentores sugere uma mudança de curso em nossa apresentação. Para ele, havia muito texto e só dificultaria a compreensão aos jurados. Todos nos convencemos de que ele estava certo nesse ponto. A lição que ficou para o time foi: simplifique, o máximo possível, a comunicação. Faltava pouco tempo, e coube a mim ajustar a apresentação.

Enquanto eu arrumava os slides, a Carolina seguia treinando o pitch. Faltando menos de 30 minutos para os pitchs definitivos das equipes, a conexão à Internet simplesmente cai. Inicialmente achávamos que era problema no computador, mas, mesmo tentando em mais de um computador diferente, a conexão não voltava. Eu precisava exportar a apresentação para PDF em tempo recorde. Só para ilustrar o cenário: o time todo ficou desesperado!

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A Carolina me perguntava, de cinco e cinco minutos, se eu tinha conseguido resolver o problema. Rhuan e Matheus tentavam retomar a conexão. Mesmo usando o 3G/4G de seus próprios smartphones, a conexão não voltava. Pedi emprestado o computador do meu amigo e colega Felipe Moreira de Oliveira, mas também não funcionou. Corri até os computadores que seriam usados para expor as apresentações no telão do auditório e, finalmente, consegui.

Mais uma lição ficou para o time: tente não deixar o mais importante para a última hora. Felizmente tivemos êxito e arrumamos a apresentação a tempo. O tempo era escasso, mas parecia ter dado tudo certo. Os pitchs foram sorteados, e a nossa equipe era a quinta a se apresentar. A cada encerramento, a tensão aumentava. Os jurados perguntavam bastante sobre as iniciativas no palco, e estávamos esperando uma bateria de questionamentos.

O momento mais esperado do Global Legal Hackathon: o pitch

Fomos chamados ao palco. A Carolina subiu primeiro, e eu fui logo depois. Adriana e Matheus subiram em seguida. Rhuan ficou na sala dos computadores, pois ele iria exibir um vídeo executando o MVP. No começo da apresentação, a Carolina não estava conseguindo passar os slides. A tensão aumentou. No fim descobrimos que o passador de slide estava ao contrário e bastava virá-lo em 180 graus. Mas, no nervosismo, coisas assim nem sempre são percebidas.

A Carolina faltou por cerca de 4 minutos e alguns segundos, apresentando o pitch muito bem. Estava contente com o resultado. Os jurados, então, começaram a nos indagar com uma bateria de perguntas, e ela imediatamente passou para mim o microfone. Respondi quatro ou cinco perguntas dos jurados, e ela respondeu uma. Enfim, tudo pareceu ter corrido bem. Embora alguns times tivessem se saído bem, senti que tínhamos chances de ganhar.

Global Legal Hackathon 03
Hora do pitch da VisualDocs

O resultado do Global Legal Hackathon

Foram minutos e minutos esperando os resultados. Os jurados simplesmente não saíam da sala de votação. Aliás, a tensão aumentava. Estávamos na expectativa do resultado, pois acreditávamos que era possível vencer o hackathon. Enquanto o resultado não vinha, ficávamos conversando sobre os melhores pitchs e cogitando quais equipes tinham chances de vencer. Entre uma conversa e outra, registramos essa foto de toda a equipe da VisualDocs:

Global Legal Hackathon 04
A equipe completa esperando o resultado do hackathon

Os resultados foram anunciados. A equipe IDO ganhou o prêmio inclusão, pela proposta em ajudar idosos com sua ferramenta. Em seguida, duas equipes qualificadas foram anunciadas como estando em empate técnico. A comissão organizado do evento decidiu colocá-las no segundo lugar. O suspense aumentava. Foi quando finalmente revelaram o resultado: vitória da equipe IDO, integrada pelo meu amigo e colega Felipe Cardoso de Oliveira.

Parabéns, Felipe, pela vitória! A equipe IDO apresentou uma solução inclusiva e mereceu ambos os prêmios. Não foram anunciados os resultados a partir do 4º lugar. Então, não sei em que lugar realmente ficamos. Mas, mesmo não tendo vencido competição e convencido os jurados, acredito que nossa ferramenta tem potencial de transformar a comunicação jurídica no futuro. Aliás, estou decidido a avançar na ideia e aprimorá-la.

Como foi ter participado do Global Legal Hackathon?

Sem dúvida, uma experiência transformadora. Incrível. Inesquecível. Uma aula de negócios, inovação, comunicação e empreendedorismo. Foram muitos aprendizados que faltariam palavras para descrever. Dedicar um final de semana para participar de um evento como esse envolve abrir mão de estar com quem amamos e até adiar alguns projetos. Mas a sensação é de ter dado saltos exponenciais na incansável jornada do conhecimento.

Obrigado, Global Legal Hackathon, pela experiência.

Obrigado a todos que tornaram esse evento uma realidade.

Enfim, meus sinceros agradecimentos.


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Bernardo de Azevedo

Advogado, empreendedor, professor e pesquisador de novas tecnologias. Acredita no poder da informação como forma de incentivar as pessoas a promover mudanças.

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