Quer saber se sua advocacia será automatizada no futuro? Quebre-a em tarefas!

Empresas da comunicação ao redor do mundo costumam explorar um futuro distópico no qual a inteligência artificial substitui cargos e profissões inteiras, incluindo a advocacia. Editores sabem que matérias como essas acionam a amígdala (o sensor de alerta) dos leitores, assim como o senso de sobrevivência no mercado, sendo, portanto, mais acessadas.

Muitas vezes, as matérias são meramente especulativas, sem nenhuma conexão com a realidade. Outras vezes, as notícias são embasadas em estudos sérios, como aquele conduzido em 2013, na Oxford University, pelos pesquisadores Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne, segundo o qual 47% das profissões nos EUA têm alto risco de automação no futuro.

Mas é preciso enxergar para além, pois mesmo esse conhecido estudo tem suas limitações. Primeiro, porque foi lançado numa época que as técnicas de Machine Learning e Deep Learning não eram tão avançadas como hoje. Segundo, porque sugere um cenário de automação de profissões, sem atentar, portanto, para as tarefas intrínsecas de cada profissão.

O fato é que os algoritmos de IA estão focados em automação de tarefas, e não na automação de cargos, funções e ocupações inteiras. Desse modo, enxergar a automação sob a perspectiva de tarefas, e não da profissão propriamente dita, facilita a compreensão dos impactos da IA no futuro de qualquer profissão e, em especial aqui, da advocacia.

Quebrando a advocacia em tarefas

Assim, para saber a sua advocacia será automatizada no futuro, a sugestão é: quebre-a (fracione-a) em tarefas! Afinal, a advocacia abrange não apenas uma, mas um conjunto de atividades diárias. E, para iniciar nosso exercício mental, nada melhor do que descrever algumas atividades dos advogados. Em suma, estão entre as tarefas desses profissionais:

  1. Redigir petições;
  2. Pesquisar jurisprudência;
  3. Organizar documentos;
  4. Responder e-mails;
  5. Participar de audiências;
  6. Atuar no plenário do júri;
  7. Prospectar clientes;
  8. Realizar acordos;
  9. Estudar o caso concreto;
  10. Despachar com julgadores.

Certamente existem mais atividades, mas, para exemplificar o potencial da automação, utilizarei essas como referência. Em primeiro lugar, peço ao leitor que pense brevemente em cada uma dessas tarefas. Pense em quais delas realiza diariamente, se advogado(a) for, quais delas gosta mais de realizar e quais não se importaria caso fossem automatizadas.

Tarefas que poderão ser automatizadas no futuro

De acordo com Adriano Mussa, pós-doutor em inteligência artificial pela Columbia University, a IA pode nos substituir em quaisquer tarefas que sejam (a) repetitivas e que tenham passado pelo processo de digitalização (sendo passíveis, portanto, de otimização por meio de dados); (b) e que não requeiram altos níveis de interação social ou de criatividade.

Com esses requisitos em mente, tomei a liberdade de montar um diagrama com duas colunas. Na coluna da esquerda, vamos inserir as tarefas que não podem ser automatizadas (aquelas que exigem altos níveis de interação ou de criatividade). Já na coluna da direita, vamos inserir aquelas tarefas que podem ser automatizadas (ou seja, aquelas repetitivas):

futuro 01

Redigir petições

Embora existam empresas especializadas em geração automatizada de narrativas, como a Narrative Science, é pouco provável que o ato de “redigir petições” seja inteiramente automatizado no futuro. Ferramentas de redação de documentos entregarão minutas de petição, que dificilmente serão protocoladas sem, antes, receber um “retoque” dos advogados.

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Pesquisar jurisprudência e organizar documentos

Já não se pode dizer o mesmo das tarefas de “pesquisar jurisprudência” e “organizar documentos”. Plataformas de legal analytics e jurimetria vêm ganhando espaço, oferecendo pesquisas mais acuradas aos profissionais. Em suma, não é necessário alguém específico para pesquisar jurisprudência quando se tem ferramentas avançadas como essas.

Da mesma forma, já existem softwares capazes de montar e organizar documentos, reduzindo custos e o tempo que os profissionais necessitam despender em atividades similares. Além disso, como os processos são, em boa parte, eletrônicos, e a jurisprudência pode ser consultada de forma online, ambas as tarefas são passíveis de otimização por meio de dados.

Responder e-mails

Embora algoritmos de IA sejam capazes de classificar e-mails em spam e não spam, estamos distantes de um modelo em que eles possam  identificar quais e-mails exigem ação imediata do usuário; ou que sejam capazes de preparar respostas empáticas e assertivas para cada e-mail recebido. Portanto, a tarefa de responder e-mais dificilmente será automatizada tão cedo.

Participar de audiências e atuar no plenário do júri

Por serem baseadas em interações sociais e apresentarem caráter menos repetitivo, tarefas como “participar de audiências” e “atuar no plenário do júri” não parecem ser candidatas à automação. Não há como supor, mesmo num futuro distante, que algoritmos sejam capazes de desempenhar tais atividades. Logo, devem permanecer na coluna da esquerda.

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Prospectar clientes e realizar acordos

“Prospectar clientes” e “realizar acordos” são igualmente tarefas que exigem níveis elevados de interação social e criatividade. Em síntese, dificilmente o cliente fechará contrato sem interagir, ainda que virtualmente, com o profissional. Já em tratativas de acordo, a criatividade muitas vezes é necessária para se chegar a uma solução agradável a todos os envolvidos.

Estudar o caso concreto e despachar com julgadores

Finalmente, tarefas como “estudar o caso concreto” e “despachar com julgadores” dificilmente serão automatizadas. O estudo do caso requer atenção e criatividade do profissional. Não há como supor que um algoritmo seja capaz de fazê-lo. Da mesma forma, a conversa no gabinete do magistrado, para explicar pontos relevantes do caso, exige interação social.

Desse modo, o nosso diagrama de tarefas ficará assim:

O futuro da advocacia

Esse diagrama é válido para demonstrar que a advocacia dificilmente será automatizada por completo. Mesmo com todos os avanços – atuais e projetados para o futuro – no campo da IA, muitas das tarefas desempenhadas por advogados continuarão exigindo altos níveis de interação social e criatividade, habilidades que os algoritmos não conseguem aprender.

Podemos realizar mais exercícios mentais, acrescentar outras tarefas ou mudar o diagrama para uma matriz 4×4 – como propõe o professor Kai-Fu Lee –, mas, ainda assim, é improvável um cenário no qual a advocacia seja inteiramente automatizada. É possível, sim, que surjam novas funções para os advogados, mas que sejam substituídos por máquinas, não.


P.s. Em 2017, o Financial Times lançou o portal interativo Can a robot do your job?, que calcula quais tarefas são passíveis de automação, abrangendo diversas profissões. Ao selecionar a categoria “Legal” e, em seguida, a subcategoria “Lawyers”, a plataforma aponta que apenas 5 de um total de 23 tarefas podem ser desempenhadas por algoritmos.


Continue explorando o assunto

LEE, Kai-Fu. Inteligência artificial. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.

MUSSA, Adriano. Inteligência artificial: mitos e verdades. São Paulo: Saint Paul Editora, 2020.


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Bernardo de Azevedo

Advogado, empreendedor, professor e pesquisador de novas tecnologias. Acredita no poder da informação como forma de incentivar as pessoas a promover mudanças.

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