Softwares de policiamento preditivo ganham espaço nos EUA

Recente reportagem da Motherboard revelou que softwares de policiamento preditivo já são usados por dezenas de cidades nos Estados Unidos (EUA). Tais ferramentas, em síntese, recomendam áreas de policiamento onde crimes já foram praticados ou denunciados, para que a polícia, então, organize suas patrulhas a partir das recomendações.

Softwares de policiamento preditivo

Uma das empresas mais conhecidas no ramo é a PredPol, cuja missão é ajudar na aplicação da lei e manter as comunidades mais seguras, reduzindo a vitimização. O software desenvolvido pela empresa identifica os horários e locais onde determinados crimes têm maior probabilidade de ocorrer, ajudando a polícia a planejar o patrulhamento.

O sistema foi projetado em um esforço conjunto entre matemáticos, programadores e estudantes da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e Universidade de Santa Clara, ambas na Califórnia. O auxílio do Departamento de Polícia de Los Angeles e de Santa Cruz foi igualmente essencial para calibrar os algoritmos e aprimorar as previsões.

Para prever onde e quando novos crimes serão cometidos, a estrutura matemática patenteada pela empresa analisa três aspectos comportamentais dos agressores. Em resumo, são eles: repeat victimization, near-repeat victimization e local search (vitimização repetida, vitimação quase repetida e pesquisa local, em tradução livre).

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A PredPol não é a única empresa no ramo de policiamento preditivo

1. Vitimização repetida

Se sua casa for invadida hoje por delinquentes, o risco de ser invadida amanhã aumentará. Isso porque, conforme a PredPol, é racional que os infratores retornem a lugares em que tiveram sucesso em suas empreitadas criminosas. O algoritmo estuda dados detalhados e aprende com a “vitimização repetida” para antecipar a prática de novos crimes:

Faz menos sentido ir a alguma outra casa desconhecida, onde eles [os criminosos] não sabem se a casa está vazia, não sabem o quão difícil é invadir e não sabem o que há para ser roubado. A casa em que invadiram dois ou três dias atrás é muito menos arriscada. – PredPol

2. Vitimização quase repetida

O algoritmo não apenas considera que, se sua casa for invadida hoje, o risco de ser invadida amanhã aumentará; mas também pressupõe que, se sua residência está em risco de ser novamente invadida, a casa do vizinho também estará ameaçada. Afinal, o vizinho tem status socioeconômico semelhante ao seu, bens similares e uma casa parecida com a sua.

3. Pesquisa local

Este último aspecto comportamental – a pesquisa local – une os dois itens anteriores, costurando tudo. De acordo com a PredPol, os criminosos escolhem determinados locais para praticar seus crimes e raramente cometem delitos longe de seus “principais pontos de atividade”. Sendo assim, a tendência é que os crimes se agrupem nos mesmos locais.

Críticas aos softwares de policiamento preditivo

Conforme a PredPol, o policiamento preditivo “beneficia criminosos em potencial”, pois os impede de cometer crimes. Apesar da iniciativa da empresa ser considerada louvável para alguns, não faltam críticas. Especialistas apontam que o sistema ajuda a direcionar e organizar as patrulhas, mas não há garantia de que os crimes sejam mesmo “evitados”.

Outra crítica ao software está relacionada à discriminação algorítmica. O fato de alguém ter ligado para a polícia afirmando que um crime ocorreu não significa que realmente foi praticado. Desse modo, há a possibilidade de enviesar o algoritmo com falsas denúncias de crimes. E tal prática daria margem à discriminação e a abordagens policiais desnecessárias.

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A PredPol não é a única no ramo

Conforme a matéria da Motherboard, a PredPol não é a única no ramo. Existem outras empresas que estão oferecendo suas soluções de policiamento preditivo aos departamentos de polícia estadunidenses. No entanto, tudo está sendo conduzido de forma sigilosa, sem muito alarde, o que levanta dúvidas sobre dados pessoais, privacidade e segurança.

Continue explorando o assunto

HEAVEN, Will Douglas. Predictive policing algorithms are racist. MIT Technology Review, Cambridge, 17 jun 2020.

HASKINS, Caroline. Dozens of cities have secretly experimented with predictive policing software. Motherboard, Montreal, 6 fev 2019.


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Bernardo de Azevedo

Advogado, empreendedor, professor e pesquisador de novas tecnologias. Acredita no poder da informação como forma de incentivar as pessoas a promover mudanças.

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