O que vem depois do escritório de advocacia AI First

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O que vem depois do escritório de advocacia AI First

Desde que a IA generativa passou a ocupar um espaço cada vez maior no mercado e no debate público, especialmente ao longo de 2023 e 2024, ganhou força também a ideia do chamado escritório de advocacia AI First. O conceito parte da premissa de que a IA não deve ser apenas adicionada às práticas existentes, mas considerada desde a concepção dos processos, serviços e da própria operação do escritório.

Durante algum tempo, esse posicionamento funcionou como elemento de diferenciação. Em meados de 2026, porém, chamar um escritório de AI First já parece pouco aderente à realidade: a IA generativa está presente, em maior ou menor grau, na rotina de praticamente todos os grandes escritórios de advocacia, ainda que seu uso nem sempre esteja institucionalizado, estruturado ou integrado aos processos internos.

Se utilizar IA, por si só, já não é suficiente para distinguir um modelo de advocacia de outro, o debate começa a migrar do AI First para aquilo que vem sendo chamado de NewMods. A diferença central deixa de estar na adoção da tecnologia e passa a residir na forma como o próprio negócio jurídico é estruturado para capturar os ganhos de eficiência proporcionados por ela.

Quando ser AI First deixa de ser diferencial

A questão central é imaginar como um escritório seria construído hoje partindo do pressuposto de que a IA já existe. Essa mudança de perspectiva é importante: em vez de simplesmente inserir IA em uma estrutura concebida para outra realidade tecnológica, os NewMods procuram repensar desde a origem aspectos como processos, precificação, distribuição do trabalho, estrutura organizacional e entrega de valor ao cliente.

Segundo Jen Berrent, CEO da Covenant, escritório norte-americano que adota um modelo alternativo de prestação de serviços jurídicos, o que diferencia um escritório de advocacia NewMod não é simplesmente o uso de IA. Afinal, ferramentas de IA já estão disponíveis para praticamente todos os escritórios, e os próprios advogados desses novos modelos muitas vezes vieram de grandes bancas ou de departamentos jurídicos tradicionais. O verdadeiro diferencial está no modelo de negócios.

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Do AI First aos NewMods

De acordo com Berrent, em vez de apenas inserir novas ferramentas em uma estrutura já existente, o NewMod reorganiza a forma de prestar o serviço jurídico para aproveitar melhor os ganhos de eficiência trazidos pela tecnologia. A novidade não está na IA em si, mas na forma como o escritório é estruturado para funcionar a partir dela, o que envolve rever aspectos como a distribuição do trabalho, a estrutura organizacional, a formação das equipes e, principalmente, a lógica de precificação.

Isso pode significar, por exemplo, equipes menores e menos dependentes da tradicional estrutura piramidal formada por muitos advogados juniores executando tarefas repetitivas. Parte dessas atividades pode ser absorvida por tecnologia, enquanto profissionais mais experientes passam a concentrar esforços em estratégia, supervisão, relacionamento com clientes e decisões de maior complexidade.

Em muitos desses modelos, a cobrança deixa de estar diretamente vinculada ao número de horas trabalhadas e passa a privilegiar preços fixos ou previamente definidos, o que elimina o conflito entre produtividade e faturamento típico do modelo tradicional e torna a redução do tempo necessário para executar um trabalho economicamente desejável.

A mudança altera os próprios incentivos econômicos do escritório. Em um modelo baseado em horas faturáveis, executar em duas horas uma atividade que anteriormente exigia dez pode representar ganho de produtividade, mas também redução de receita. Quando o preço é previamente definido, a lógica se inverte: executar o mesmo trabalho com menos recursos pode ampliar a margem do escritório e, ao mesmo tempo, permitir que parte desse ganho de eficiência seja compartilhada com o cliente.

Nesse contexto, a IA deixa de representar apenas uma ferramenta de produtividade interna e passa a influenciar diretamente a lógica econômica do escritório, permitindo reduzir custos, aumentar capacidade e compartilhar parte desses ganhos de eficiência com o cliente.

O futuro da advocacia

É justamente nesse ponto que os NewMods se tornam relevantes para a discussão sobre o futuro da advocacia. A vantagem competitiva deixa de depender apenas da capacidade de adquirir ou utilizar determinada tecnologia e passa a depender da capacidade de redesenhar o negócio para transformar produtividade em capacidade, margem, previsibilidade e melhor entrega ao cliente.

O futuro da advocacia não será definido apenas por quais escritórios utilizam os modelos de IA mais avançados, mas por quais conseguem reorganizar seus processos, incentivos, estruturas e formas de cobrança para transformar eficiência tecnológica em vantagem competitiva. Se a IA tende a se tornar infraestrutura comum do mercado jurídico, a verdadeira diferenciação estará cada vez menos na ferramenta utilizada e cada vez mais no modelo de negócio construído ao redor dela.

Talvez, por isso, a pergunta mais relevante para os escritórios nos próximos anos deixe de ser “qual ferramenta de IA estamos utilizando?” e passe a ser outra: se o nosso escritório fosse criado hoje, sabendo que a inteligência artificial já existe, ele seria estruturado da mesma maneira?


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