A IA já pode reconstruir visualmente os fatos de um processo?

A IA generativa está cada vez mais presente na atividade jurídica, sendo utilizada para produção textual, análise adversarial e diversas outras possibilidades. Um dos potenciais ainda pouco explorados no âmbito dos processos judiciais, contudo, é a utilização da IA para reconstruir visualmente fatos relevantes do processo, seja como forma de comunicação dos argumentos jurídicos, seja como recurso de ilustração das provas
Hoje, a partir de simples instruções em linguagem natural, os LLMs conseguem produzir imagens com altíssimo nível de definição, detalhamento e realismo, muitas vezes difíceis de distinguir, a um primeiro olhar, de registros fotográficos reais. Embora alguns advogados já tenham utilizado IA para gerar mapas mentais, fluxogramas e gráficos, inserindo-os em processos judiciais, fica a dúvida se haveria espaço para aplicações mais avançadas.
Reconstruir visualmente os fatos de um processo
Refiro-me, em especial, ao uso de animações computadorizadas para reconstruir visualmente acontecimentos relevantes para o processo: a dinâmica de um acidente, a posição ocupada por determinadas pessoas, a trajetória de um objeto, a disposição física de um ambiente ou mesmo uma determinada sequência de acontecimentos sustentada por uma das partes. Haveria espaço para o emprego da IA generativa nesse contexto?
No Brasil, a animação computadorizada vem ganhando espaço nos últimos anos, com destaque em casos de Tribunal do Júri e em ações indenizatórias que envolvem colisão entre veículos. Tradicionalmente, no entanto, é trabalho de profissionais especializados, a partir de medições, documentos, fotografias e laudos, com o auxílio de softwares como Blender, Cinema 4D e ferramentas específicas de modelagem e reconstrução.
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O que muda com a IA generativa
O que muda agora é a escala e a facilidade com que essas representações podem ser produzidas. Modelos generativos cada vez mais avançados, somados a sistemas capazes de criar e manipular ambientes tridimensionais e operar softwares de modelagem, reduzem drasticamente a barreira técnica para a produção de cenas visualmente convincentes. O recente modelo de linguagem GPT-6 Astra ilustra bem essa evolução.
Diferentemente dos modelos antecessores, o GPT-6 Astra ultrapassa a simples geração de imagens em 2D, sendo capaz de criar uma casa em 3D no Blender e, em seguida, transformar a residência em um ambiente navegável no Unreal Engine 5. Mais do que um gerador de modelos 2D (e agora 3D), o Astra atua como agente, escrevendo código, controlando ferramentas profissionais e inspecionando os resultados.
Mesmo sendo pesquisador de direito, inovação e tecnologia há mais de 17 anos, e mesmo com todos os avanços da IA, até recentemente eu não cogitava com seriedade que a IA generativa, no campo das imagens e das animações, pudesse ser empregada, de forma relevante, no Poder Judiciário. Com os avanços mais recentes, especialmente os demonstrados pelo Astra, passo a vislumbrar a possibilidade com muito mais clareza.
O realismo visual exige novos controles
Ainda assim, para que esse recurso possa ser utilizado na demonstração de fatos e argumentos em processo judicial, não basta a capacidade de gerar uma cena visualmente convincente. Será necessário estabelecer mecanismos que demonstrem como a representação foi construída, quais elementos serviram de referência e como foram definidos aspectos como proporções, texturas, distâncias, posições, trajetórias e iluminação.
Novos tempos trazem consigo novas tecnologias, mas, ao mesmo tempo, demandam novos parâmetros de controle.
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