A inteligência artificial acabou com a última desculpa dos advogados

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A inteligência artificial acabou com a última desculpa dos advogados

Recentemente, assisti a um vídeo de um palestrante que fazia uma provocação interessante a um grupo de empresários e que me fez pensar sobre aquilo que, durante muito tempo, foi a principal desculpa dos advogados para não produzir conteúdo em redes sociais: a falta de tempo.

Explico melhor a seguir.

Em determinado momento desse vídeo, o palestrante projetou um slide com dois sanduíches lado a lado: à esquerda, um Big Mac, do McDonald’s; à direita, um hambúrguer tradicional do Madero. Primeiro, perguntou à plateia qual dos dois seria melhor, e a resposta pareceu praticamente unânime: o Madero. Em seguida, veio a segunda pergunta: qual dos dois vendia mais? Dessa vez, a resposta também foi praticamente unânime: McDonald’s. O palestrante, então, extraiu daquele exemplo uma mensagem simples: o mais conhecido sempre vence o melhor.

Eu faria apenas um pequeno ajuste nessa conclusão. Não acredito que o mais conhecido sempre vença o melhor, mas existe uma verdade difícil de contestar: ser tecnicamente excelente não é suficiente se ninguém souber que você existe. E isso vale muito para o mercado jurídico.

Hoje existem profissionais extremamente competentes, que realizam trabalhos de excelência, mas que praticamente não aparecem. Não publicam nas redes sociais, não possuem um site, não explicam o que fazem, não compartilham conhecimento nem constroem presença digital. Consequentemente, acabam sendo menos lembrados do que profissionais tecnicamente inferiores, mas que aprenderam a se posicionar.

A desculpa dos advogados para não produzir conteúdo

Durante muitos anos, ouvi de colegas que produzir conteúdo nas redes sociais exigia muita dedicação. Eles chegavam a cogitar a ideia, mas alegavam não ter tempo diante da rotina intensa da advocacia. O argumento sempre me pareceu, de certa forma, uma desculpa, pois, com organização, é possível produzir algum material, ainda que mais breve, o suficiente para manter uma presença constante nas redes sociais.

Parece-me claro que, hoje, com a inteligência artificial, essa desculpa deixou de existir. A barreira para produzir conteúdo ficou ainda menor: é possível utilizá-la para organizar ideias, estruturar textos, desenvolver roteiros, pesquisar referências, criar elementos visuais e transformar um mesmo conhecimento em diferentes formatos.

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Autoridade não exige dancinhas ou fórmulas de engajamento

Dias atrás, conversando com um colega advogado, ele me disse algo mais ou menos assim: “Bernardo, é complicado ver profissionais muito inferiores tecnicamente conseguindo mais clientes simplesmente porque aparecem mais.” Ele fez questão de destacar, sobretudo, os profissionais que ganham visibilidade por meio de trends, dancinhas e quadros de humor.

Nunca enxerguei o humor ou a exposição excessiva como requisitos para construir autoridade profissional. Gosto de falar em público, ministro palestras e aulas todos os anos, mas não me sinto à vontade produzindo vídeos voltados a essas tendências e a “fórmulas com views garantidas”. Particularmente, não é a linha que sigo: sempre preferi produzir um conteúdo mais sóbrio, educativo e conectado ao conhecimento que quero compartilhar.

Acredito na constância e na consistência, ou seja, na regularidade ao longo do tempo, com mínima interrupções, e na coerência de linha e qualidade em cada conteúdo produzido. Crio conteúdo há uma década e, desde o início, meu recorte sempre esteve relacionado a Direito, inovação e tecnologia, normalmente com o objetivo de ajudar profissionais da área jurídica a compreender como novas tecnologias podem melhorar o seu trabalho.

Essa consistência acabou criando uma associação bastante clara entre os temas sobre os quais escrevo, minha atuação profissional e a forma como sou percebido pelo mercado jurídico, o que não aconteceu de uma hora para outra. Certamento não sou um dos mais conhecidos do mercado, mas, quando se pensa em Direito, inovação e tecnologia, meu nome é lembrado, sendo procurado para capacitações, palestras e consultorias jurídicas.

O fato é que, assim como eu comecei há uma década, qualquer profissional pode dar esse mesmo passo a partir de hoje. É natural que o início não seja tão simples, da mesma forma como não é simples começar uma dieta ou ganhar massa muscular na academia. O lado positivo, no entanto, é que hoje contamos com um grande auxílio para essa jornada: a inteligência artificial generativa, cada vez mais democratizada e acessível a todos.

O advogado que está começando hoje pode explicar uma mudança legislativa, comentar uma decisão relevante, mostrar como determinado problema costuma surgir na prática, apresentar os serviços que oferece, ensinar algo que ajude seu público ou compartilhar experiências profissionais, revelando como pensa sobre determinado tema. Tudo isso também é produção de conteúdo e, dependendo do posicionamento pretendido, pode gerar muito mais autoridade do que simplesmente tentar reproduzir aquilo que está funcionando no perfil de outra pessoa.

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A IA amplifica o profissional, mas não cria repertório

Na minha concepção, a inteligência artificial ajuda muito nessa tarefa de produção de conteúdo, sobretudo porque amplifica o profissional, para o bem ou para o mal. Se você não tem nada a dizer, ela provavelmente produzirá apenas mais um conteúdo genérico em meio a milhares de outros. Mas, se você possui conhecimento, experiências, opiniões e repertório, a IA pode ajudá-lo a transformar tudo isso em textos melhores, roteiros mais estruturados, apresentações mais claras e conteúdos visualmente mais interessantes, reduzindo o esforço operacional entre ter uma ideia e publicá-la.

Talvez esse seja um dos maiores benefícios da IA para quem pretende construir autoridade. A tecnologia tornou mais fácil aparecer e eliminou de vez a desculpa dos advogados para não aparecer, mas continua sendo responsabilidade de cada profissional decidir pelo que deseja ser conhecido.

Por isso, para quem ainda não produz conteúdo, minha sugestão é apenas uma: comece. Não necessariamente fazendo dancinhas, seguindo trends bobas ou tentando se transformar em uma personalidade de internet. Comece compartilhando aquilo que você sabe: ensine, explique, mostre como pensa, ajude alguém a compreender melhor um problema que você domina.

Com o tempo, ajuste o formato, encontre sua linguagem e construa sua própria identidade. Porque, no final, talvez a melhor lição daquele slide com os dois hambúrgueres não seja simplesmente que o mais conhecido vence o melhor. É que competência sem visibilidade dificilmente se traduz em resultado.


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