Na era da IA, seu texto ainda parece ter sido escrito por você?

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Na era da IA, seu texto ainda parece ter sido escrito por você?

Uma das preocupações que vêm me acompanhando nos últimos tempos diz respeito à forma como a IA poderá transformar não apenas o processo de escrita, mas também a maneira como cada profissional se expressa por meio dela. À medida que passamos a utilizar LLMs com mais frequência para redigir textos na era da IA, surge uma questão relevante: a possibilidade de que, em algum momento da jornada, acabemos perdendo a nossa própria voz.

Durante muitos anos, cada profissional desenvolveu uma maneira particular de escrever, que se manifesta na escolha das palavras, na construção dos argumentos, no tamanho das frases, na forma de organizar o raciocínio e até na maneira de se dirigir ao leitor. No caso dos advogados, tais características muitas vezes se refletem diretamente nas peças jurídicas e acabam formando uma espécie de identidade profissional construída ao longo do tempo.

Minha preocupação é que a incorporação crescente da IA à escrita jurídica possa alterar significamente esse processo. Se antes os textos refletiam diretamente as escolhas e o estilo de quem os escrevia, agora há uma nova camada intermediando a produção como um todo. E, se a IA não for calibrada para reconhecer e preservar essas características, o resultado pode ser um texto tecnicamente adequado, mas cada vez mais distante da escrita de quem o assina.

O risco de perder a identidade da escrita na era da IA

Esse risco de uniformização promovido pela inteligência artificial, que detalho aqui, não preocupa todos os profissionais da mesma forma. Há advogados, por exemplo, que entendem que o mais importante é que o texto cumpra sua função, seja claro e consiga comunicar aquilo que precisa ser comunicado. Para esses profissionais, a eventual perda de determinadas características pessoais da escrita não representa um problema relevante.

Mas outros – e aqui me incluo – enxergam a questão de maneira diferente. Para quem sempre atribuiu valor à própria forma de escrever e procurou imprimir uma identidade particular aos seus textos, a possibilidade de que a IA torne a produção mais homogênea é preocupante. O risco é o de que, ao ganhar eficiência, possamos também começar a perder parte daquilo que fazia com que os nossos textos fossem reconhecidamente nossos.

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Você está se afastando da sua própria voz na escrita?

Hoje gostaria de propor um teste rápido, simples e prático, que pode ajudar você a perceber se, de algum modo, está se afastando da sua própria voz na escrita com o uso da IA e já nem percebe mais isso. Minha sugestão é selecionar dois ou três textos produzidos antes da popularização da IA generativa, escritos até o final de 2022, e compará-los com textos mais recentes, já escritos com algum grau de participação de ferramentas de ia.

Uma primeira possibilidade é você mesmo comparar as duas redações para identificar se há grande diferença entre o texto antigo e o texto novo. Observe as frases, a construção do raciocínio e o uso de conectivos. Analise o tamanho dos parágrafos que costumava escrever antes e compare com os parágrafos de agora. Estude o texto brevemente e verifique se o estilo se mantém semelhante ou se mudou de forma significativa.

Se não quiser fazer essa análise por conta própria, ou já estiver acostumado a delegar a tarefa para a IA, é possível apresentar os dois conjuntos de textos e perguntar quais características de linguagem, estrutura, argumentação e estilo permanecem em comum e quais parecem ter mudado. Rode essa análise em mais de um modelo de linguagem, ou mesmo em ferramentas diferentes, para verificar se o resultado final é semelhante.

Embora seja importante destacar que a maneira de escrever de um profissional não permanece intacta ao longo da carreira, pois naturalmente se transforma com o tempo – como demonstram estudos de estilometria –, a análise que sugeri pode ajudar a identificar se as mudanças percebidas decorrem de um processo natural de amadurecimento ou se passaram a ser influenciadas, em alguma medida, pelos padrões de linguagem introduzidos pela IA.

Preservando a própria voz na era da IA

Quando entregamos à IA a tarefa de produzir um texto inteiro desde o início, sem direcioná-la para empregar a nossa identidade, o resultado tende a se aproximar mais do padrão de linguagem do modelo do que da voz de quem utilizará aquele conteúdo. A longo prazo, esse comportamento, hoje cômodo para todos nós, pode resultar em textos cada vez mais parecidos entre si, escritos em uníssono, sem qualquer traço de originalidade.


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Na era da IA, seu texto ainda parece ter sido escrito por você? | Bernardo de Azevedo