Como a inovação vai transformar o modelo de negócios dos escritórios de advocacia

O conceito de inovação é nebuloso para muitos profissionais do Direito. Grande parte não compreende do que se trata e associa a inovação com o ato de vender novos produtos e serviços em seus escritórios. Para muitos advogados e advogadas, inovar é criar novas soluções e oferecer ao mercado. Contudo, quando começamos a estudar melhor o conceito, percebemos que seus limites vão muito além da criação de novos produtos/serviços.

Uma rápida pesquisa na Internet revela que não existe um conceito universal de inovação. O leitor que pesquisar no Google neste instante encontrará mais de 96 milhões de menções ao termo. São inúmeras as definições, e, não raras vezes, encontramos expressões vinculadas, como invenção e criatividade. Esse excesso de informações incomoda um pouco, e muitos profissionais preferem desistir a entender os contornos dos conceitos.

Não tenho também uma definição pronta e acabada para oferecer ao leitor, mas, após muito ler sobre o tema e comparar diversas definições existentes, fica claro que inovar é fazer as coisas de um jeito novo, diferente. É fazer mudanças em algo já estabelecido. No campo jurídico, a inovação envolve reexaminar a maneira definida de fazer as coisas, tendo em foco, é claro, o potencial de emitir “mais e melhores notas fiscais” (Silvio Meira).

Espécies de inovação

Uma maneira didática de entender a inovação é compreender suas quatro categorias:

  1. Incremental;
  2. Radical;
  3. Disruptiva;
  4. Exploratória.

Inovação incremental

A primeira delas, a inovação incremental, envolve melhorar processos, produtos ou serviços já existentes. Ela é focada, portanto, em melhorar a eficiência de processos existentes. Só para ilustrar: a inovação incremental é a espécie mais comum. Em suma, é a maneira mais barata e menos arriscada de inovar. Na maioria das vezes, a inovação incremental não requer tanta pesquisa e desenvolvimento quanto as outras categorias de inovação.

Os automóveis e as baterias de íon-lítio são dois exemplos de inovações incrementais. A tecnologia por trás dos primeiros carros inventados é a mesma de hoje, ou seja, o motor a combustão. Mas, ao longo dos anos, eles foram sendo aprimorados, ficando mais confortáveis, seguros e econômicos. Já as baterias de íon-lítio, tão comuns em eletrônicos, foram criadas em 1912, comercializadas a partir de 1970 e vêm recebendo incrementos desde então.

Inovação radical

Alguns especialistas entendem que inovação radical e disruptiva são expressões sinônimas. Há tanto quem entenda os conceitos como sendo vinculados à estratégia do oceano azul, defendida por Chan Kim e Renée Mauborgne, quanto quem sustente ser derivado da teoria desenvolvida por Clayton Christensen em O dilema da inovação. Existe, contudo, uma corrente minoritária segundo a qual as modalidades não se confundem.

Para essa corrente, a diferença entre elas tem como aspectos centrais a mudança de comportamento e a desestabilização do mercado. A inovação radical cria uma ideia ou produto novo, mas não muda a maneira como as pessoas se comportam ou desestabiliza o mercado. Costuma-se colocar nessa categoria invenções que não deram certo. Produtos como Google Glass e Segway, apesar de seu caráter inovador, não convenceram o mercado.

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Existem muitas formas de inovar

Inovação disruptiva

Já a inovação disruptiva cria uma ideia ou produto novo, e, além disso, muda comportamentos. Desestabiliza o mercado. A expressão “disruptiva” nos remete a uma “ruptura”, uma “quebra da continuidade de um processo estabelecido”. São exemplos as geladeiras, microondas e computadores pessoais. Embora hoje sejam tecnologias do cotidiano, à época de sua criação elas mudaram o comportamento das pessoas e redesenharam o mercado.

O Uber é, provavelmente, um dos exemplos mais recentes. Antes dele, as pessoas normalmente chamavam táxis com um aceno de mão (ou por telefone). Hoje, chamam um motorista com simples clique no smartphone. A inovação disruptiva se difere, então, da inovação radical. Além da criar de algo novo, inicia uma mudança comportamental. No geral, as pessoas passarão a agir e se comportar diferentemente de antes (da inovação disruptiva).

Inovação exploratória

Há também um quatro tipo de inovação, a exploratória. Ela envolve construir uma visão de futuro para a empresa ou organização, por meio de cenários e estratégias. É uma categoria à parte, porque, no momento de definir as estratégias que serão adotadas, a empresa pode decidir que deseja melhorar seus produtos/serviços adotando uma inovação incremental, radical ou disruptiva. (Agradeço aqui ao amigo Cristiano Borges Franco pelos insights.)

Inovando no mercado jurídico

Compreendidas essas quatro espécies de inovação – não estanques e sujeitas a críticas, você pode estar se perguntando: qual espécie de inovação vem sendo aplicada no mercado jurídico brasileiro? O que se vê, na prática, são aplicações de conceitos da inovação incremental. As práticas envolvem tanto melhorar processos dentro dos escritórios de advocacia (combinadas ou não de tecnologias) quanto criar novos produtos e serviços.

Até o momento, não temos exemplos de inovações radicais ou disruptivas[1]. Mas, da forma como o quadro está sendo emoldurado, não tardará para que alguém crie algo capaz de estabelecer uma ruptura no mercado, mudar radicalmente a forma como os advogados trabalham ou mesmo o comportamento dos clientes. Não sabemos quando e quem conseguirá. Tampouco sabemos se realmente precisamos de inovações radicais ou disruptivas.

Mas, inevitavelmente, a inovação vai transformar o modelo de negócios dos escritórios de advocacia. Em artigo publicado no Legal Services Today, aliás, o consultor em estratégia jurídica Ralph Baxter destaca que os esforços de inovação conduzirão a mudanças essenciais no modelo de negócios dos escritórios. Conforme ele, cada mudança terá um impacto sobre as outras – e, assim que uma delas mudar, as outras obrigatoriamente se adaptarão.

Como a inovação vai transformar o modelo de negócios dos escritórios

Uma das faces da mudança envolve a melhoria nos serviços prestados. O modelo tradicional de prestação de serviços do escritórios é baseado no que funciona para os escritórios – e não para o cliente. A inovação incremental poderá ser adotada para criar novos modelos de atendimento em que o cliente está no centro de tudo. Já a inovação exploratória, sob uma perspectiva de longo prazo, poderá definir estratégias para satisfazer melhor os clientes.

O modelo de negócios dos escritórios de advocacia cada vez mais será construído com base naquilo que o cliente está procurando. Os profissionais passarão a adotar novas abordagens, que envolvem mais atenção no design de processos. De acordo com Baxter, as novas práticas abrangerão mais uso de tecnologia e, ao mesmo tempo, uma mistura de pessoas (equipe multidisciplinar) projetando e executando atividades nos escritórios de advocacia.

Outra face da mudança, que se conecta com a anterior, diz respeito ao modelo de recursos. Conforme o especialista, os escritórios não serão capazes de aprimorar os serviços seguindo o modelo tradicional, que depende – quase inteiramente – de parceiros e advogados associados, para projetar e executar o trabalho jurídico. Em suma, o formato é oneroso, limitado e não aproveita o potencial do que o século XXI oferece em termos de recursos.

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Conforme Baxter, o modelo inovador de recursos em escritórios de advocacia incluirá, além das tecnologias jurídicas, não advogados que prestam serviços jurídicos (no Brasil, apesar da existência de projetos de lei a respeito, a figura não é permitida), colaboração ativa de terceiros (como empresas especializadas em análise de dados) e novas funções para advogados (ajustáveis para melhorar a experiência do cliente a atendê-los da melhor maneira possível).

Existem muitas formas de inovar – incremental, radical, disruptiva ou exploratória são apenas algumas delas. Quando se trata de inovação, não há certo ou errado. O fato é que o Direito jamais será analógico como antes, e, para sobreviver no concorrido mercado jurídico brasileiro, o “mais do mesmo” talvez não seja suficiente no futuro. Os que tomarem a decisão antes, colherão os primeiros frutos. Enfim, como conclui o consultor Ralph Baxter:

A implementação desses novos elementos do modelo será um desafio, principalmente para empresas que continuam apresentando resultados positivos a curto prazo. As empresas que fizerem essas mudanças mais cedo e melhor, no entanto, acharão muito mais fácil alcançar a inovação exigida pelo mercado. E obterão uma vantagem competitiva significativa. – Ralph Baxter


NOTAS

[1] A afirmação está sujeita a interpretações diversas. O Jusbrasil, ao condensar todas as informações jurídicas num único lugar e conectar advogados com a população, seria um exemplo de inovação radical (ou mesmo disruptiva)? Aliás, e as plataformas de resolução online de conflitos (ODR)? Enfim, entrariam nessas classificações?


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Bernardo de Azevedo

Advogado, empreendedor, professor e pesquisador de novas tecnologias. Acredita no poder da informação como forma de incentivar as pessoas a promover mudanças.

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