Você ainda conseguiria trabalhar sem IA?

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Você ainda conseguiria trabalhar sem IA?

A inteligência artificial passou a ocupar posição cada vez mais central na prática jurídica, levando um número crescente de profissionais a recorrer a plataformas construídas com base em LLMs para analisar documentos, organizar fatos, revisar contratos, estruturar argumentos e produzir a primeira versão de praticamente qualquer texto. Para muitos profissionais, trabalhar sem IA já começa a parecer cada vez mais distante da realidade cotidiana.

Uma pesquisa divulgada pelo Artificial Lawyer, que contou com a participação de mais de 500 advogados, corrobora esse olhar. Dos entrevistados, 34% afirmaram utilizar ferramentas de IA diariamente, e 32% disseram usá-las várias vezes por semana. Mais significativo, contudo, é o fato de que 15% dos advogados de grandes escritórios e 13% dos profissionais de departamentos jurídicos já se consideram dependentes da tecnologia para realizar o próprio trabalho.

Os dados também ajudam a compreender em quais atividades a dependência começa a se formar. Redação de documentos, pesquisa jurídica e revisão documental aparecem como os três principais usos da IA entre os entrevistados. Não se trata, portanto, de tecnologia restrita a tarefas periféricas ou administrativas, mas de ferramenta que já participa da análise, da construção do raciocínio e da produção do trabalho jurídico.

Diante desses números, ganha força uma pergunta que tende a se impor com ainda mais urgência nos próximos anos: você ainda seria capaz de exercer sua atividade profissional caso a inteligência artificial se tornasse indisponível amanhã? E se os servidores da plataforma que você assina (ChatGPT, Gemini, Claude ou outra) caíssem pelo dia inteiro? E se a indisponibilidade se estendesse por mais tempo, como uma semana inteira?

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Essa pergunta costuma ser respondida parcialmente pelas quedas das próprias plataformas de IA, como ChatGPT, Gemini e Claude. Ainda que raras, essas interrupções levam os profissionais a perguntar uns aos outros, em grupos, se “a ferramenta caiu também”, deixando a atividade de lado até que ela volte a funcionar. Não é incomum perceber advogados visivelmente nervosos em grupos de WhatsApp diante de uma queda nos servidores.

O ponto-chave a compreender é que o uso da inteligência artificial vem se tornando tão corriqueiro que o profissional já não parte mais da folha em branco: ora a primeira versão da minuta já é iniciada diretamente com a IA, ora os documentos são enviados a ela com o pedido de que a peça seja gerada. Esse modo de operação já se tornou rotina, levando muitos profissionais a abandonar a elaboração de petições nos moldes anteriores.

É claro que recorrer diariamente à IA não significa, necessariamente, depender dela. Um profissional pode utilizar a tecnologia com grande frequência e, ainda assim, conservar a capacidade de realizar o trabalho por outros caminhos. A diferença está no que ocorre quando a ferramenta deixa de estar disponível. Se a indisponibilidade da IA apenas tornar o trabalho mais lento, está-se diante de uma ferramenta que ampliou a produtividade.

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Quando o uso da IA se transforma em dependência

Se, por outro lado, o profissional não souber mais como iniciar a tarefa, estruturar o raciocínio ou verificar o resultado sem o auxílio da IA, há um sinal de que o apoio começou a se transformar em dependência. A questão, portanto, não está na frequência com que se utiliza a IA, mas no grau de autonomia que ainda se preserva diante dela. A tecnologia deve ampliar as capacidades do profissional, sem substituir a compreensão sobre o trabalho que ele realiza.


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Você ainda conseguiria trabalhar sem IA? | Bernardo de Azevedo