Continuous reskilling: o advogado deve continuamente desenvolver novas habilidades

Desenvolver continuamente novas habilidades (continuous reskilling, em tradução livre do inglês) é imperativo para o advogado 4.0. No texto de hoje, explico o porquê.

Duplicando o conhecimento

A quantidade de informações disponíveis hoje na Internet, somado ao ritmo acelerado com que o conhecimento é produzido, vem sendo objeto de estudo nas últimas décadas. Muito antes da velocidade exponencial particular da era 4.0, especialistas como o futurista Buckminster Fuller já se dedicavam a entender de que forma o conhecimento se expande ao longo dos anos.

Na década de 80, o inventor estadunidense desenvolveu a chamada curva de duplicação do conhecimento. Em resumo, ele estimou que o conhecimento humano dobrava a cada século até 1900. Ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o conhecimento estava dobrando a cada 25 anos. Já em 1982, no mesmo ano em que publicou o livro Critical Path, o conhecimento dobrava a cada 13 meses.

As estimativas do futurista foram depois complementadas pela IBM. Conhecida por fazer previsões audaciosas sobre o futuro, em sua tradicional lista 5 in 5, a gigante da tecnologia sustentou que até 2020 o conhecimento dobraria a cada 12 horas. Só para ilustrar, a imagem a seguir revela a curva de duplicação do conhecimento de Buckminster Fuller, com a previsão posterior da IBM:

continuous reskilling 01

Tsunami do conhecimento

Para o especialista em aprendizado organizacional Marc Rosenberg, estamos muito próximos de ser “engolidos” por aquilo que ele denomina “tsunami do conhecimento”. De acordo com Rosenberg, esse fenômeno está sendo conduzido por quatro motores principais: (1) a Internet das Coisas, (2) o Big Data, (3) o avanço da ciência e da invenção e (4) a sociedade colaborativa.

O primeiro dos motores é a Internet das Coisas, representada pela ideia de interligar os objetos da vida cotidiana à Internet. Algumas estimativas sugerem que o mundo terá em torno de 50 bilhões de dispositivos interconectados até 2020. Conforme ele, a quantidade de informações geradas pelos dispositivos conectados corresponderá à quantidade de informações geradas pelas pessoas.

Esse cenário se conecta ao segundo fator, o Big Data. O mundo está cada vez mais governado por dados. Desse modo, essa imensidão de dados (tanto estruturados quando não estruturados) exigirá mais conhecimento dos profissionais, que deverão ser capazes de retirar valor dessas informações com rapidez e eficiência. Tudo em prol de tomar decisões profissionais cada vez mais “certeiras”.

Já o terceiro motor é o avanço da ciência e da invenção. As descobertas científicas e as novas invenções estão surgindo em ritmos alucinantes. Nos últimos 50 anos, o número de patentes anuais aumentou de cerca de 50 mil para 325 mil nos Estados Unidos. Ideias novas estão substituindo ideias antigas. Aliás, será que tudo o que pode ser inventado foi inventado? Ao que parece, não.

Para Rosenberg, o último motor que impulsiona o tsunami do conhecimento é a sociedade colaborativa. A crescente interconectividade de indivíduos, equipes e organizações cria oportunidades para descobrir, disseminar e aprimorar o conhecimento. Em síntese, hoje uma parte significativa do conhecimento é desenvolvido de forma colaborativa. Não por indivíduos, mas por equipes.

É provável que você goste:

Conheça 3 habilidades essenciais do advogado do futuro

continuous reskilling 02

Essa explosão do conhecimento traz consigo benefícios, mas também desafios. A possibilidade de nos tornarmos profissionais multidisciplinares, dominando mais de uma área do conhecimento, está entre os principais benefícios. Já os desafios envolvem lidar com o excesso de informações nas mais diversas mídias (sobrecarga cognitiva) e, sobretudo, saber lidar com a “meia-vida do conhecimento”.

A meia-vida do conhecimento

Em resumo, meia-vida é o tempo que leva para algo reduzir pela metade a sua quantidade. O termo é frequentemente usado no contexto do decaimento radioativo, que ocorre quando partículas atômicas instáveis perdem a energia (ao menos 29 elementos são capazes de passar pelo processo). Embora os cientistas tenham definido meias-vidas para diferentes elementos, a taxa exata é complementa aleatória.

Na biologia, meia-vida é o tempo necessário para uma substância perder metade dos seus efeitos. Aliás, as drogas são o exemplo mais óbvio. Quando falamos em meia-vida da droga, estamos falando do tempo necessário para que seu efeito seja dividido pela metade. Ou seja, o tempo que leva para metade da substância sair do corpo (na farmacocinética, o processo é chamado de “meia-vida de eliminação”).

Assim como as partículas atômicas instáveis e as drogas, o conhecimento também tem meia-vida. O conceito “meia-vida do conhecimento” (half-life of knowledge, em inglês) foi introduzido em 1962 por Fritz Machlup, economista austro-americano e presidente da International Economic Association, para descrever o tempo que leva para metade de um conhecimento específico ser substituído.

É provável que você goste:

4 itens que NÃO podem faltar no toolkit do advogado 4.0

Para se ter uma ideia, a meia-vida da carreira de engenharia era de 35 anos em 1860. Ou seja, levaria 35 anos para que metade do que um engenheiro aprendeu na faculdade fosse refutado ou substituído. Um século depois, esse período diminuiu para 10 anos. Hoje, as estimativas colocam a meia-vida de um diploma de engenharia entre 2,5 e 5 anos, exigindo entre 10 e 20 horas de estudo por semana.

Embora os números das “meias-vidas” da maioria das carreiras sejam difíceis de mensurar, muitos acreditam que o conhecimento está ficando obsoleto em menos tempo. Os avanços da tecnologia estão afetando uma série de domínios, exigindo profissionais cada vez mais especializados para enfrentar os novos desafios. Em síntese, a advocacia também está imersa nesse novo contexto.

Continuous reskilling é um imperativo dos novos tempos

A Quarta Revolução Industrial está mudando a maneira com que os advogados exercem suas atividades. As questões jurídicas estão se tornando mais complexas, como forma de acompanhar as também complexas relações humanas. Em suma, o profissional que deseja se manter no mercado da advocacia, e reduzir ao máximo a meia-vida do conhecimento, deve desenvolver novas habilidades e competências.

Um recente relatório do World Economic Forum revelou que um terço das habilidades hoje consideradas essenciais no mercado de trabalho não mais serão necessárias até 2020. O estudo, que contou com a opinião de especialistas em recursos humanos e gestão estratégia das maiores empresas do mundo, demonstra, mais do que nunca, que o continuous reskilling é um imperativo dos novos tempos.

Só para ilustrar, estas são algumas das competências fundamentais que os advogados do futuro deverão continuamente desenvolver:

1. Apresentação pessoal: o profissional ativo nas mídias sociais tende a ser mais reconhecido e procurado;

2. Comunicação eficaz: saber apresentar argumentos de forma persuasiva é essencial no trabalho do advogado;

3. Conhecimento de Visual Law: peticionar com elementos visuais aumenta as chances de convencer os magistrados;

4. Criatividade: o advogado deve saber conectar informações aparentemente diferentes para criar algo novo;

5. Pensamento crítico: o profissional deve saber usar a lógica e o raciocínio para questionar problemas;

6. Resolução de problemas complexos: o advogado deve saber resolver problemas novos e indefinidos em ambientes reais;

7. Flexibilidade cognitiva: o advogado deve ampliar as maneiras de pensar e se relacionar com pessoas que desafiam suas visões.

Continuous reskilling e a advocacia 4.0

Todas essas habilidades podem ser aprendidas e aprimoradas. Não há mais desculpas para deixar de aprender novas competências. O conhecimento, que antes era restrito às universidades e órgãos governamentais, está agora à disposição de todos, ao alcance de um clique. Embora o Direito esteja sempre atrasado em relação ao tempo social, os advogados não precisam seguir o mesmo ritmo.

Enfim, todo profissional está sujeito a lidar com a “meia-vida do conhecimento”. Nunca saberemos tudo, e um dia esqueceremos muito do que aprendemos. Contudo, o profissional que desenvolve continuamente novas habilidades potencializa suas chances de alçar voo no “novo mundo” do Direito. Ao dominar novas competências, o advogado 4.0 passa a ter o mundo em suas mãos.

Portanto, advogado(a): desenvolva continuamente novas habilidades!

Continuous reskilling for life.


Quer estar por dentro de tudo que envolve Direito, inovação e novas tecnologias?

Siga-me no Facebook, Instagram e LinkedIn e acompanhe conteúdos diários para se manter atualizado.

Bernardo de Azevedo

Advogado, empreendedor, professor e pesquisador de novas tecnologias. Acredita no poder da informação como forma de incentivar as pessoas a promover mudanças.

Anterior

Storyboards: como eles podem aprimorar as petições dos advogados

Próximo

Como os drones vão influenciar o futuro da prática jurídica